Vinte anos
Sonhei, pleonasticamente falando, um sonho, pode rir, seu riso é meu gozo; ria mesmo, só mesmo um grande palhaço consegue fazer rir você.
Não se choque, só mesmo um palhaço vive a vida inteira, e já é palhaço por isso. Hilário achar a vida inteira vivida com trinta e poucos e mais alguma coisa de dor e raiva e ódio e amor.
Não se ofenda, dentro do peito do palhaço há um coração, na verdade, na verdade, várias gavetas, cada uma com um sentimento, é como seu estômago, quando todas as gavetas se abrem, dá azia.
Estou com azia hoje, as gavetas se abriram e o pepino do almoço se misturou com o ovo do jantar e a azia só aumenta.
Azia da vida, da gente que nem se sabe gente, do povo que nem sabe onde está seu nariz, aliás, azia de mim e do que eu faço aqui, entre porcos e cordeiros, entre osso buco e caviar. Entre a vontade de amar você e entre você não me amar, entre encher a cara e dormir entre... Mas sempre se acorda do sonho, do delírio.
Sonhei, idiotamente, um sonho entre você e eu, como diz o poeta “num corte lento e profundo entre você e eu, o nosso amor a gente inventa pra se distrair”.
Como no peito do palhaço há um armário de piadas, já dizia o Chico, há no meu armário, no mais profundo do ser uma piada, mas, ainda assim, uma piada guardada no peito do palhaço que ama você de amor. Idiotamente falando. Um palhaço apaixonado, essa deve ser a melhor definição de uma boa palhaçada. Ah, não se esqueçam dos aplausos ao final da leitura, todo palhaço sente prazer quando o circo, não se sabe por que, não se sabe onde, não se sabe como, pega fogo.
A.Q.C.
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