Lá em casa tinha um cacto, era fácil de cuidar, eu olhava pra ele e ele pra mim todo dia. Ele lá na sua cactice e eu aqui, em minha “solistência”. Nunca o via sentir nada, sempre verde, robusto. Parecia nem aí, água duas vezes ao ano e ele lá, no canto, na dele. E nós, cada um na sua, anos e anos de intimidade, felizes em nosso silêncio mudo.
Eu, que com nada preenchia a vida, pensei em um cão, logo lembrei das fezes, desisti. Pensei no peixe, a temperatura, deixei de lado. Um pássaro, não, muito barulho. Esquece, sigamos eu e o cacto.
Encontrei-a mais ou menos nessa época, ainda achava que faltava algo quando a vi verde, viçosa, úmida, viva, linda...não resisti, levei-a para casa.
Coloquei-a na varanda, nossa, que diferença, a casa parece que ficou outra, uma vida, um cheiro... Foi a primeira vez que o cacto mudou, ele deu uma flor, uma flor grande, avermelhada, linda.. Eu, ignorante que era, nem sabia que ele era capaz disso, dar flor...um cacto?
Duas semanas vivemos assim: eu, o cacto e ela, na mais pura harmonia. Sempre me sentava para escrever e olhava os dois na varanda, tão diferentes, tão distantes, tão bonitos. Um olhando o outro...felizes, pensava eu, somos em nosso silêncio profundo.
Ela, não sabia eu o porquê, começou a cair, cair, cair, ficou amarela. Sem razão, não era inverno, era verão, época de o cacto ficar verde, e ela amarela, que coisa, mudei-a de lugar. Nada, só piorava...A flor do cacto também começou a murchar, essa foi a segunda vez que o vi sentir algo...Ela pior...ficou marrom, caiu de vez...
Droga, deixei-a lá, pendurada, amarronzada, sem graça. Passava um filme antigo esse dia, e o cacto, meio amarelo também, lá de fora me olhava, vi a moça no filme molhar uma planta, muita água, Deus...a planta era como a minha...água...água...água...tarde, a avenca secou...
Dias depois, o cacto amarelo ficou marrom, ficou preto, se foi...Morreu a avenca... Morreu ele...Morremos nós: o cacto e a avenca, a varanda e eu.
A.Q.C.
Nenhum comentário:
Postar um comentário