Não sei se vão concordar comigo, mas a política adotada em nosso Estado para a chamada educação, não está funcionando. Ela serviu para plantar o princípio da discórdia entre alunos, professores e grupo gestor.
O Aluno acha que o professor ganha um prêmio por dar aulas e como quase todo aluno odeia os professores, pronto, está feito o problema. Ele não se lembra, em momento algum, que o professor, como ele, também tem filhos, mãe, cachorro, papagaio e por ai vai e que, principalmente, ele, o aluno, precisa comparecer às aulas, participar das atividades, respeitar o professor, para depois cobrar. Aliás, parece que todos esqueceram essa parte, a dos deveres, só andam correndo pelos corredores os direitos. Sabiam que seus direitos acabam onde começam os meus? Sabiam que para cobrar é preciso fazer, primeiro, a sua parte?
O professor acha que o coordenador agora virou carrasco e que sua única função é cortar o ponto e ele quer ganhar o maldito bônus. Se a categoria tivesse um mínimo de bom senso faria um acordo abrindo mão da esmola do secretário se você for trabalhar morrendo, muitos vão, a maioria acaba pagando, como sempre por um pequeno número. Eu já vendo minha força de trabalho por muito menos do que eu mereço ganhar, agora, acha que por 1.500 reais a mais, que ninguém nem sabe se vão ser pagos mesmo, vou sair de maca ou deixar um parente meu doente sem auxílio, sinceramente, nem com todo o rigor da iniciativa privada, para a qual eu já trabalhei anos, vi tamanha desumanidade.
O vice-diretor, que antes era coordenador geral e fazia o elo entre os turnos de uma escola que funciona com quatro realidades diferentes, virou bedel. Sua nobre função é correr atrás de alunos nos corredores. Na escola na qual trabalho a piada ainda fica maior, o vice-diretor é Mestre em Educação, aceitou o cargo cheio de projetos. Se fosse economista teria um destino melhor.
Tem aluno nas redes sociais acreditando mesmo que essa política vai dar certo, claro, pensando no prêmio que o governo disse que vai oferecer para os melhores alunos, mas na cabeça dele ser o melhor aluno não tem uma relação direta com ele estudar, está ligada ao professor ir e olhar para ele brincando no celular e tudo dar certo no final. Só mesmo rindo com um caos desses.
Ofereceram até uma parceria com escolas particulares para preparar alunos para o ENEM, na verdade o interesse do governo não é a performance dos alunos no ENEM, é o IDEB que ele quer a qualquer custo elevar, para ganhar mais verbas do governo federal que nunca chegam as nossas escolas, pergunto a vocês: algum aluno da nossa escola recebeu essa bolsa para cursinho na rede particular? Não, nenhum. Olhem a lista e vejam onde eles estão investindo, a maioria dos alunos são os das escolas militares.
É um fato para o qual todos querem fechar os olhos, mas a indisciplina dos alunos e a ausência da família tornaram-se o maior problema do sistema educacional. A conta é simples, nas séries iniciais são aplicadas provas para os alunos do 5º ano, eles têm uma única professora, pais que levam o filho até a porta da sala, que olham cadernos, que participam das reuniões, em fim: que vão à escola, temos x.
Na segunda fase, que avalia alunos de 9º ano, temos, na maioria esmagadora dos casos, adolescentes que ficam sozinhos em casa, pais que nunca aparecem na escola, crianças, que o Estatuto da Criança e do Adolescente não considera mais como crianças, completamente sós, essa falta de acompanhamento na fase mais difícil de nossas vidas reflete no desempenho, a equação é x-2.
Já no Ensino Médio, a realidade é outra, avaliam alunos do 3º ano, são alunos mais maduros, que, na sua grande maioria despertaram para a realidade e almejam um curso superior, a família ainda está distante, mas o adolescente começa a sentir novamente a presença dos pais que querem que ele faça um curso superior, muitas vezes nem são os pais, eles sentem essa necessidade e, novamente, nossa equação muda, temos x -1.
Essa dança dos números pode ser observada em todas as avaliações de desempenho aplicadas às diferentes etapas do ensino, fica notória que a falta de participação da família tem, de forma brutal, contribuído para o baixo desempenho dos estudantes. Se analisarmos o desempenho de estudantes há vinte anos, quando a estrutura familiar era outra, quando nossa economia permitia que os pais tivessem uma carga de trabalho menor, com certeza essa dança de números seria outra. Não conheço confesso, os números dessa época, se é que nessa época existiam essas estatísticas.
Não retiro a nossa parcela de responsabilidade nesses “números”, mas a coisa já começa errada no nome que querem nos atribuir: educadores, eu não sou educadora, eu posso ser formadora de opinião, minha obrigação é esclarecer e ensinar conteúdos, quem educa é pai e mãe. E fica muito fácil para o governo, que conhece, muito melhor que eu essa realidade, colocar a culpa no professor, é muito difícil assumir que, na verdade, o problema é socioeconômico e, principalmente, político.